quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A Fênix







A Fênix é um pássaro admirável e lindo que vive no Hindus tão. Não tem
companheiro, vive só. Seu bico, muito comprido e liso, é todo furado, como a flauta, e tem quase cem furos. Cada furo produz um som, e em cada som há um segredo especial. Às vezes, ela cria música através dos furos, e ao ouvir as notas que ela emite, meigas e plangentes, pássaros e peixes se agitam e os mais ferozes animais caem em êxtase; depois, todos se calam. De uma feita, um filósofo visitou o pássaro e aprendeu com ele a ciência da música. A Fênix vive cerca de mil anos e sabe exatamente o dia em que vai morrer.
Chegada a hora da morte, reúne à sua volta grande quantidade de folhas de palmeira e, desvairada entre as folhas, desfere gritos merencórios. Pelos furos do bico, emite notas variadas, e a música lhe sai do fundo do coração. Suas lamentações expressam a tristeza da morte, e ela treme qual uma folha. Ao som da sua trombeta, os pássaros e animais se aproximam para assistir ao espetáculo, desnorteados, e muitos morrem por lhes faltarem as forças. Enquanto ainda respira, a Fênix bate as asas e eriça as penas, e, com isso, produz fogo. O fogo se espalha pelas copas das palmeiras, e tanto as frondes quanto o pássaro são reduzidos a carvões acesos e, logo, a cinzas. Mas depois que a derradeira chama tremeluz e se extingue, uma nova e pequena Fênix surge das cinzas.
Nunca sucedeu a ninguém renascer após a morte? Ainda que vivesses tanto quanto a Fênix, morrerias quando se enchesse a medida da tua existência. Os seus mil anos de vida estão cheios de lamentações, e ela permanece só, sem companheiro nem filhos, e sem contato com ninguém. Quando chega o fim, atira as próprias cinzas ao vento, de modo que se possa saber que ninguém escapa da morte, seja qual for o artifício que empregar.
Aprende, pois, com o milagre da Fênix. A morte é um tirano, mas precisamos tê-la sempre em mente. E, conquanto tenhamos muito que aguentar, isso é nada comparado ao morrer.


A conferência dos pássaros - Farid Ud-Din Attar, pag 76,77