sexta-feira, 5 de abril de 2013

O ócio digno - um dos textos mais brilhantes que já li na vida.


O Ócio Digno.

                 Ciro Marcondes já citou várias vezes em seus livros que vivemos “a Sociedade Pós-Moderna do Prazer”. Não há mais o “projeto pessoal do trabalho”, apenas uma absorção contínua do que podemos viver e consumir. Curiosamente, nunca estivemos tão entregues às imposições do trabalho, particularmente depois que os telefones celulares, computadores e ‘escritórios-digitais-em-casa’ acabaram com o cartão de ponto. Estamos vivendo um aparente paradoxo da admiração pelo ócio e sua doentia conversão em trabalho. O primeiro, cada vez mais valorizado nos cantores de pagode da T.V., e nos “craques” do futebol, mas condenado no “mundo real”, quando convertido em mais trabalho, realimenta um ciclo que nos escraviza.
            Estamos num tempo de transição quanto aos valores que se tem sobre o trabalho. A nossa cigarrinha do trecho 1 pode agora receber os mais fervorosos aplausos das formigas na “TV-formigueiro”. É um “ócio digno”. A igreja não oferece mais dogmas tão fortes sobre o “sofrimento do trabalho que dignifica” (embora religiões protestantes nos países norte-americanos ainda exerçam grande influência na relação do cidadão com seu trabalho). Aprimoramos a técnica. Produzimos tempo livre. Produzimos “ócio digno”! Poderíamos ter a tão prometida liberdade que a técnica traria (embora Marx tenha sido cético quanto a isso), e agirmos como verdadeiros “pós-modernos”. Poderíamos ser os Eloys de H.G. Wells! Mas não é o que fazemos. Convertemos nosso “ócio digno” em trabalho, “com apenas alguns cliques”. E o pouco que sobra dele é convertido em aplausos aos que “têm mais ócio”. E quando somos nós os “conversores”, agimos com tanta ambição, libertos pela inexistência de “lucro máximo permitido pela sociedade”, que convertemos o ócio dos outros em mais trabalho – portanto mais lucro – usando institucionalizadamente o mito de que o “ócio é ruim”.
         Somos escravos dessa incapacidade de enxergar nosso “lucro de tempo”, fruto da técnica aprimorada, como outra coisa que não “potencial lucro monetário”. Mas como todo escravo tem um feitor, quem é o nosso? Parece existir um “moto-contínuo” que realimenta esse paradoxo: aquele que transforma o “ócio convertido em dinheiro” em placebos para nossas ansiedades pós-modernas de prazer – os produtos de consumo. Eles nascem dessa conversão do “ócio digno” em mais lucro, mais trabalho, e nos alimenta de prazeres materiais. E intensifica também a cobiça, a atitude doentia capitalista, chegando aos extremos de exploração do trabalho infantil e regimes de trabalho semi-escravocratas.

Mas qual seria a solução? O mundo estabelecer o conceito de “lucro máximo”? Juntamente com a técnica, isso nos forçaria a trabalhar menos, e o “ócio resultante” seria visto finalmente com bons olhos. Mas aí estaríamos falando de uma economia planificada, e tangenciando o lado dialético da questão, mostrando que dentro desse paradigma mora o próprio gérmen de sua destruição.
               Nesse instante eu acabo de receber o atestado de trabalho que solicitei à fiscal no início da prova. É curioso pensar como todo ócio precisa ser justificado, ainda que esse ócio seja causado pelo estudo. Vivemos um tipo de escravidão sutil, inconsciente. Uma submissão que me faz recordar de um outro “texto” pós-modernista: Matrix. Por um pouco de prazer consumista vendemos nosso ócio, e aceitamos alimentar o “moto-contínuo” do sistema. Mas às vezes “acordamos”, e não há nenhuma “nave” lá fora para voltarmos e combatermos. Não foi à toa que Durkheim foi feliz em apontar a relação entre a segunda-feira e as  estatísticas de suicídio. Pequenas formigas acordando e percebendo que queriam ser cigarras.


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